Hoje eu completo 40 anos.

Nessa data especial, pensei em escrever um daqueles textos bonitos (“textão”), falando sobre tudo o que aprendi durante minha caminhada até aqui. Afinal, completar 40 anos é como percorrer, no mínimo, a metade do caminho, certo?

Porém, ao começar a escrever, me dei conta de que durante grande parte da minha “vida” (sim, com aspas) eu simplesmente estava fora do caminho (João 14:6) ou, melhor dizendo, “no caminho largo, que conduz à perdição” (Mateus 7:13).

Eu passei longos anos simplesmente vagando por aí, por caminhos que me pareciam direitos, mas que me conduziam à morte (Provérbios 14:12).

Ao refletir sobre isso, percebi que, na verdade, não estou completando 40 anos de vida. É sério! Hoje eu completo 10 anos de vida. Isso mesmo. Parece loucura, mas não é?

Apenas 10 anos! Antes disso, não havia vida em mim. Como assim, Kerwin? Você está ficando velho e senil? As muitas letras te fazem delirar? Não. Fique calmo, eu explico.

Há 10 anos eu estava morto. Sim! Completamente morto em minhas ofensas e em meus pecados (Efésios 2:1; Romanos 6:2). Eu imaginava que o mundo girava em torno do meu umbigo. Eu me achava o centro do universo. Eu só pensava em mim, na minha vida, nas minhas conquistas, naquilo que eu poderia fazer com meus próprios esforços.

Eu buscava a minha própria glória, a minha felicidade. E apesar de não encontrá-la, eu continuava buscando, sem saber que, por mim mesmo, eu nunca a encontraria.

Eu era como um cego, caminhando sobre uma esteira silenciosa colocada estrategicamente sobre a lama, e que recebe no rosto o vento calmo de um ventilador. Eu pensava estar andando em um caminho lindo, com uma brisa suave, mas meus passos não me moviam do lugar sujo onde eu estava. Eu era um morto que pensava estar vivo. Como um zumbi.

Mas há 10 anos tudo mudou. O Senhor me deu vida, uma vida abundante nele (Efésios 2:5; Colossenses 2:13; João 10:10). Minha cegueira foi curada, meus pecados perdoados, a natureza depravada do meu ser foi extirpada, e uma nova criatura Ele fez de mim. Ele me chamou e me mostrou o caminho… o único caminho. Ele é o caminho. E por isso hoje vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim (Gálatas 2:20).

O que Deus fez comigo me trouxe a lembrança uma antiga oração. Uma das mais lindas orações já escrita pelo homem, conhecida pelo título “Tarde te amei”, de autoria de Aurélio Agostinho, bispo de Hipona.

Agostinho, assim como eu, passou grande parte de sua “vida” como um morto (32 anos). A sua história conta que certo dia, na Itália, em companhia de seu amigo Alípio, Agostinho ouviu uma criança que cantava: “Tolle et lege” (“toma e lê”); ao ouvir tais palavras, foi até o amigo, que estava com um exemplar das Escrituras. A primeira passagem que Agostinho leu foi Romanos 13.13-14:

“Vivamos decentemente, como pessoas que vivem na luz do dia. Nada de farras ou bebedeiras, nem imoralidade ou indecência, nem brigas ou ciúmes. Mas tenham as qualidades que o Senhor Jesus Cristo tem e não procurem satisfazer os maus desejos da natureza humana de vocês” (NTLH).

Em seu livro “Confissões”, no qual ele apresenta essa oração, Agostinho conta como sua vida foi mudada radical, profunda e permanentemente.

Por essa razão, para o “textão” de hoje, faço minhas as palavras de Agostinho:

1. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.

2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…

3. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.

4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.

5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.

6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!

7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…

8. Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!


Santo Agostinho, Confissões 10, 27-29

Leitura recomendada sobre o tema:

Hoje eu agradeço a Deus, não pelos 40 anos… mas por Ele ter me dado nova vida, já há 10 anos. E você, quantos anos de vida tem?

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